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Materiais rústicos do sertão inspiram grandes estilistas

Por Gustavo Frank em 22/05/2024 às 10:46:08

A cultura rica do sertão criou diálogos com as passarelas de moda. "O grande âmago da cultura brasileira está no Nordeste", defende o estilista Ronaldo Fraga.

Embora mineira, Zuzu Angel foi a primeira a retratar os detalhes da história nordestina nas peças da sua primeira coleção, no final dos anos 60, intitulada "Lampião e Maria Bonita, os Reis do Cangaço.

Lampião, Maria Bonita e seu bando criaram fascínio para a estilista, assim como inspiração e impulsionador da criatividade, por elaborarem e executarem os próprios guarda-roupas e acessórios, usando elementos da caatinga, "sendo os primeiros a ousarem a efetiva moda com brasilidade".

A coleção foi apresentada nos Estados Unidos, em 1970. Trabalhada em seda pura com estampas miúdas sobre fundo preto, em modelagem de macacões com saia-calça ou falsa-saia, cobrindo os joelhos (o comprimento à época era chamado à francesa "mi-mollet"), abertos na frente com zíper e com acessórios de couro.

Peças da coleção "Lampião e Maria Bonita, os Reis do Cangaço


Foram usadas ainda tiras finas de verniz preto com ilhoses de metal prateado que cruzavam o peito e a cintura, inspirando cartucheiras parar criar o chamado "charme das cangaceiras".

Além desses, as modelos traziam também acessórios como cinturões de seda preta, com chapas de metal dourado incrustadas de pedras preciosas brasileiras, chapéus de palha baku e botas justas de pelica, cano longo.

A coleção surgiu a partir de três grupos: as baianas, o casal Lampião e Maria Bonita e as rendeiras.


As baianas

Peças da coleção "Lampião e Maria Bonita, os Reis do Cangaço"


O grupo das baianas representava a mulher que se tornou inesquecível graças a Carmen Miranda, como argumentava a estilista ao apresentar a coleção.

Zuzu Angel dizia não buscar inspiração diretamente em Carmen, mas em como a atriz se vestia no estilo da Bahia, que a designer considerava o único estilo nativo brasileiro. Então, "naturalmente" houve analogia com sua indumentária.

Para a estilista, Carmen exagerava na caracterização, mas as referências teriam sido empregadas com bom gosto, o que de fato foi observado pelas diversas críticas, sempre elogiosas, publicadas nos EUA.


Lampião e Maria Bonita

Peças da coleção "Lampião e Maria Bonita, os Reis do Cangaço"


Os "bandidos dos anos 20", que chegaram a ser comparados a Robin Hood e aos personagens Bonnie and Clyde nas publicações norte-americanas, criminosos cuja vida virou filme em 1967 e, portanto, referência mais contemporânea.

O filme estadunidense teve enorme repercussão e, por sua influência nos anos 30, tornaram-se tendência de moda naquele momento.


As rendeiras

Peças da coleção "Lampião e Maria Bonita, os Reis do Cangaço" - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal

Peças da coleção "Lampião e Maria Bonita, os Reis do Cangaço"

O grupo das rendeiras foi tema para os vestidos de noiva, com aplicações de rendas artesanais únicas. O desfile transcorreu ao som de músicas brasileiras como as de Martinho da Vila e folclóricas, como "Mulher Rendeira".


Fonte: UOL Nossa

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