Pesquisadores da área de literatura têm manifestado crescente preocupação com a condenação de obras infantis e juvenis de reconhecida qualidade por certos grupos da sociedade.
Nos últimos anos, tem sido comum o surgimento de episódios em que obras literárias infantojuvenis, muitas vezes premiadas nacional e internacionalmente, são alvo de condenação por razões morais, religiosas, raciais ou políticas. Segundo os professores, essas atitudes repetem gestos irracionais e revelam uma forma de censura que afeta tanto textos clássicos quanto contemporâneos. "Por conta de uma leitura rasa, livros são censurados e cancelados". "Por trás de um censor, há sempre um péssimo leitor".
Entretanto, a prática não é nova no Brasil. "A biblioclastia está entranhada em nossa história", lembrando que a impressão de livros foi proibida no Brasil de 1500 até 1808, durante todo o período colonial.
Os pesquisadores abordaram a censura de forma ampla, considerando perspectivas históricas e teóricas, e incluindo a autocensura – um processo psicológico inerente à criação do escritor – e a "censura soft", que dificulta a chegada dos livros aos leitores. "Há em curso uma pedagogia da destruição de livros", disse Valente. "E, com as redes sociais, em que as pessoas não se enfrentam cara a cara, essa prática tornou-se mais acentuada".
Um exemplo da caça a bruxas, da patrulha do politicamente correto, ocorre com autores infantojuvenis, Monteiro Lobato e Ziraldo.
Monteiro Lobato, quando escreveu seus livros em 1940, foi considerado "Comunista", hoje, em pleno 2024 é considerado "Preconceituoso e Racista"
Já o também autor, infantojuvenil, Ziraldo, teve um livro seu "Menino Moreno", considerado este livro "violento".
Casos de controle, de regulação e até mesmo de censura a livros destinados a crianças têm sido relatados, nos últimos anos, pela mídia escrita e falada, dentro e fora do Brasil. Subjacente a esses atos, há uma pretensa necessidade de proteção, combinada à tendência de controle das crianças e de suas infâncias.
Quando direcionamos o olhar para o controle dos livros às obras infantis, no controle dos livros às obras infantis, notamos certa especificidade. Quem busca controlar algum conteúdo direcionado às crianças, baseia-se em uma concepção do sujeito intelectualmente dependente. Além de uma visão reducionista da infância, fundamentada na necessidade de proteção dos pequenos, os autores desses atos identificam, na literatura, um alto potencial de influência sobre a sociedade e sobre o comportamento das crianças.
Essa vinculação da literatura infantil a uma visão pragmática escolarizante, aliada a uma sociedade conservadora, influenciou práticas de controle aos livros que, apesar de não ser um fenômeno restrito ao contexto brasileiro, aqui encontrou espaço e condição ideais para se consolidar.
Para falar sobre o assunto, primeiro preciso apresentar os diversos nichos do mercado de livros infantis e juvenis.
Você sabe qual é a diferença entre os romances para Jovens Adultos, conhecidos como YA (young adult), e os tradicionais livro juvenis?
Os bibliotecários no mundo e a maioria dos editores de livros dividem os livros de ficção em categorias de acordo com a idade. Os agrupamentos padrão para a maioria são:
Pré-leitor – do nascimento aos 5 anos
Infantil ou criança - de 5 a 12 anos
Juvenil ou midle grade – de 12 a 15 anos
Adolescente ou Young Adult (YA) ou Jovem adulto – de 15 a 20 anos.
Adulto jovem – de 20 a 30 anos
Adulto – mais de 30 anos
Esses critérios etários são baseados em vocabulário, interesses, tópicos, maturidade da linguagem e das experiências narradas. A diferença entre os livros juvenis e os jovens adultos (não confundir com adulto jovem!) estão nos temas, nos assuntos abordados, na linguagem e discussões mais explícitas, e também na abordagem sobre sexo, ou seja, no universo em que o leitor está inserido em seu dia a dia.
O que podemos fazer?
Nós precisamos direcionar nossa indignação para os lugares certos: programas públicos de avaliação de obras, programas de incentivo à leitura, bibliotecas, professores, diretores de escolas e pais. Precisamos demonstrar aos pais que não é um livro com algumas palavras chulas que irá deformar o caráter de seus filhos, já que elas são ouvidas pelas crianças o tempo todo na TV e rádio, nos intervalos comerciais, no cinema, nas ruas, e na internet e redes sociais. Não seria especificamente no livro, que essas palavras, fariam o mal. E, mais importante, que livros apenas de "conto de fadas", onde tudo é somente ou bom ou mal, sem muitos sobressaltos, não educam jovens para a maturidade. E talvez os tornem tolos, ingênuos e despreparados para o mundo real.
Muitas das proibições nascem assim, de um adulto que não entende nada de infância ou adolescência, mas presume saber como o livro vai ser lido por essa faixa etária.
O adulto censura, um livro infantojuvenil, porque subestima o leitor. Crianças e adolescentes não são quadros em branco onde despejamos ensinamentos morais.
Fonte: EDITORA VUNESP e PUBLISHNEWS