A AgĂȘncia Nacional de Vigilância SanitĂĄria (Anvisa) formou maioria, nesta sexta-feira (19), para manter a proibição à venda, importação e propaganda de cigarros eletrônicos no paĂs. O transporte e armazenamento dos chamados vapes também continuam proibidos.
A comercialização dos Dispositivos Eletrônicos para Fumar (DEFs) é proibida desde 2009. Em dezembro do ano passado, porém, a agĂȘncia abriu uma consulta pĂșblica para rever a proibição dos vapes após pressão da indĂșstria do tabaco, que argumenta que a legalização dos dispositivos facilitaria o controle. Por outro lado, entidades médicas afirmam que a autorização seria um retrocesso no combate ao fumo, uma vez que os vapes são tão ou até mais maléficos do que os cigarros tradicionais.
A consulta pĂșblica foi finalizada em fevereiro e contou com quase 14 mil respostas. Torres, porém, afirmou que a consulta "não trouxe argumento cientĂfico que alterasse o peso das evidĂȘncias jĂĄ ratificadas" pela agĂȘncia.
Votaram o diretor-presidente da Anvisa e relator da votação, Antonio Barra Torres, e os diretores Danitza Buvinich, Daniel Pereira e Rômison Mota. Até o momento, faltava o voto apenas de Meiruze Souza Freitas.
De acordo com os resultados da consulta, apenas 37,4% foram favorĂĄveis à manutenção da proibição, outros 58,8% votaram na opção "tenho outra opinião", e 3,7% preferiram não responder.
O diretor da agĂȘncia, além de votar a favor da manutenção da proibição, também pediu reforço à fiscalização, além de campanhas publicitĂĄrias e educativas sobre os riscos do vape para jovens e adolescentes, principal pĂșblico que consome os cigarros eletrônicos.
O colegiado também contestou o argumento da indĂșstria sobre a proibição ser ineficaz visto à alta circulação dos produtos. O diretor Daniel Pereira rebateu que "seria irresponsĂĄvel a permissão do uso desses produtos" e que "não hĂĄ evidĂȘncias que a regulamentação do dispositivos eletrônicos de fumar minimizarĂĄ o contrabando ou a entrada ilegal, mas pelo contrĂĄrio, conforme expresso pelo Ministério da Justiça e Segurança PĂșblica, a tendĂȘncia é de drĂĄstico aumento, caso esses produtos sejam regulamentados pela Anvisa".
O cigarro eletrônico surgiu em 2003 como uma alternativa mais "saudĂĄvel" em relação aos cigarros tradicionais, mas seus benefĂcios nunca foram comprovados cientificamente. Porém, foi nos Ășltimos anos que os vapes começaram a viralizar, principalmente entre a população mais jovem, com cores, formatos e cheiros diferentes e "agradĂĄveis".
Em 2019, órgãos da saĂșde dos Estados Unidos comprovaram o surgimento de uma nova doença relacionada aos cigarros eletrônicos, a EVALI, uma sigla em inglĂȘs que significa lesão pulmonar associada ao uso de produtos de cigarro eletrônico. Em dezembro daquele ano, mais de 2 mil estadunidenses foram internados e 48 morreram devido ao vape.
Ainda assim, o consumo dos cigarros eletrônicos aumentou drasticamente, em cima do argumento que ainda eram melhores do que o cigarro tradicional. No entanto, entidades médicas, como a própria Organização Mundial da SaĂșde (OMS), alertam para os riscos desses dispositivos, que muitas vezes podem ser piores do que o tabaco.
Um dos grandes perigos do vape estĂĄ no uso de nicotina em estado lĂquido. Um estudo do Hospital das ClĂnicas (HC) da Universidade de São Paulo (USP) mostrou que, enquanto o cigarro tradicional, no Brasil, tem um limite de 1 mg de nicotina por cada cigarro, os eletrônicos chegam a ter até 57 mg da substância por ml do lĂquido.
"O cigarro eletrônico tem uma altĂssima quantidade de nicotina e um alto potencial de causar dependĂȘncia quĂmica, principalmente entre indivĂduos mais jovens. Isso se deve muito à modificação da nicotina que é usada neste produto", afirmou o pneumologista Aldo Agra, membro da Comissão de Tabagismo da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, em entrevista à Fórum em janeiro. O pneumologista também alertou que o uso do vape jĂĄ estĂĄ associado ao acidente vascular cerebral, doença cardĂaca, doença pulmonar e câncer.
Ainda de acordo com o estudo da USP, os usuĂĄrios de vape tĂȘm 42% mais chance de sofrer um infarto, devido não só à quantidade de nicotina, mas também à mistura dessa substância com diversas outras. Além disso, os jovens também aumentam em 50% a chance de ter asma.
Fonte: Revista Fórum