ANDRE FORINE

Anvisa toma decisão final sobre proibição aos cigarros eletrônicos

Dispositivos viralizaram nos Ășltimos anos sob o argumento de serem mais "saudĂĄveis" do que o cigarro tradicional, mas evidĂȘncias cientĂ­ficas mostram o contrĂĄrio

Por Júlia Motta em 11/05/2024 às 20:14:03

A AgĂȘncia Nacional de Vigilância SanitĂĄria (Anvisa) formou maioria, nesta sexta-feira (19), para manter a proibição à venda, importação e propaganda de cigarros eletrônicos no paĂ­s. O transporte e armazenamento dos chamados vapes também continuam proibidos.

A comercialização dos Dispositivos Eletrônicos para Fumar (DEFs) é proibida desde 2009. Em dezembro do ano passado, porém, a agĂȘncia abriu uma consulta pĂșblica para rever a proibição dos vapes após pressão da indĂșstria do tabaco, que argumenta que a legalização dos dispositivos facilitaria o controle. Por outro lado, entidades médicas afirmam que a autorização seria um retrocesso no combate ao fumo, uma vez que os vapes são tão ou até mais maléficos do que os cigarros tradicionais.

A consulta pĂșblica foi finalizada em fevereiro e contou com quase 14 mil respostas. Torres, porém, afirmou que a consulta "não trouxe argumento cientĂ­fico que alterasse o peso das evidĂȘncias jĂĄ ratificadas" pela agĂȘncia.

Votaram o diretor-presidente da Anvisa e relator da votação, Antonio Barra Torres, e os diretores Danitza Buvinich, Daniel Pereira e Rômison Mota. Até o momento, faltava o voto apenas de Meiruze Souza Freitas.

De acordo com os resultados da consulta, apenas 37,4% foram favorĂĄveis à manutenção da proibição, outros 58,8% votaram na opção "tenho outra opinião", e 3,7% preferiram não responder.

O diretor da agĂȘncia, além de votar a favor da manutenção da proibição, também pediu reforço à fiscalização, além de campanhas publicitĂĄrias e educativas sobre os riscos do vape para jovens e adolescentes, principal pĂșblico que consome os cigarros eletrônicos.

O colegiado também contestou o argumento da indĂșstria sobre a proibição ser ineficaz visto à alta circulação dos produtos. O diretor Daniel Pereira rebateu que "seria irresponsĂĄvel a permissão do uso desses produtos" e que "não hĂĄ evidĂȘncias que a regulamentação do dispositivos eletrônicos de fumar minimizarĂĄ o contrabando ou a entrada ilegal, mas pelo contrĂĄrio, conforme expresso pelo Ministério da Justiça e Segurança PĂșblica, a tendĂȘncia é de drĂĄstico aumento, caso esses produtos sejam regulamentados pela Anvisa".

Riscos do cigarro eletrônico

O cigarro eletrônico surgiu em 2003 como uma alternativa mais "saudĂĄvel" em relação aos cigarros tradicionais, mas seus benefĂ­cios nunca foram comprovados cientificamente. Porém, foi nos Ășltimos anos que os vapes começaram a viralizar, principalmente entre a população mais jovem, com cores, formatos e cheiros diferentes e "agradĂĄveis".

Em 2019, órgãos da saĂșde dos Estados Unidos comprovaram o surgimento de uma nova doença relacionada aos cigarros eletrônicos, a EVALI, uma sigla em inglĂȘs que significa lesão pulmonar associada ao uso de produtos de cigarro eletrônico. Em dezembro daquele ano, mais de 2 mil estadunidenses foram internados e 48 morreram devido ao vape.

Ainda assim, o consumo dos cigarros eletrônicos aumentou drasticamente, em cima do argumento que ainda eram melhores do que o cigarro tradicional. No entanto, entidades médicas, como a própria Organização Mundial da SaĂșde (OMS), alertam para os riscos desses dispositivos, que muitas vezes podem ser piores do que o tabaco.

O perigo da nicotina do vape

Um dos grandes perigos do vape estĂĄ no uso de nicotina em estado lĂ­quido. Um estudo do Hospital das ClĂ­nicas (HC) da Universidade de São Paulo (USP) mostrou que, enquanto o cigarro tradicional, no Brasil, tem um limite de 1 mg de nicotina por cada cigarro, os eletrônicos chegam a ter até 57 mg da substância por ml do lĂ­quido.

"O cigarro eletrônico tem uma altĂ­ssima quantidade de nicotina e um alto potencial de causar dependĂȘncia quĂ­mica, principalmente entre indivĂ­duos mais jovens. Isso se deve muito à modificação da nicotina que é usada neste produto", afirmou o pneumologista Aldo Agra, membro da Comissão de Tabagismo da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, em entrevista à Fórum em janeiro. O pneumologista também alertou que o uso do vape jĂĄ estĂĄ associado ao acidente vascular cerebral, doença cardĂ­aca, doença pulmonar e câncer.

Ainda de acordo com o estudo da USP, os usuĂĄrios de vape tĂȘm 42% mais chance de sofrer um infarto, devido não só à quantidade de nicotina, mas também à mistura dessa substância com diversas outras. Além disso, os jovens também aumentam em 50% a chance de ter asma.

Fonte: Revista Fórum

Comunicar erro
GAZETA NOTICIA

ComentĂĄrios